Retrospectiva idílica e a retomada do conservadorismo

A recente ascensão do conservadorismo no Brasil (e no mundo) tem sido aventada como um fenômeno de massa causado principalmente pelo avanço destes grupos nas redes sociais. Entretanto, há vários fatores psicológicos que têm servido de base para este fenômeno. Um deles é o que irei abordar neste texto: é a retrospectiva idílica.

Por que algumas pessoas têm saudade dos militares na política?

O que significa retrospectiva idílica?

Retrospectiva idílica é um fenômeno psicológico que ocorre quando uma pessoa julga o passado como sendo desproporcionalmente uma época muito melhor do que dos dias atuais. Esse fenômeno cria um viés semelhante ao conceito de nostalgia. A diferença é que a nostalgia nem sempre implica diretamente em uma lembrança tendenciosa, necessariamente positiva

A retrospectiva idílica é facilmente observável no nosso dia a dia. Esse fenômeno psicológico aparece, por exemplo, quando alguém reflete sobre os “bons e velhos tempos” enquanto lamenta os rumos e a situação da sociedade no presente. Porém, ao dizer que os temos antigos eram melhores se negligencia as coisas ruins do passado e também os avanços que a sociedade conquistou.

Antigamente ecra qu Antigamente era
Bem melho! Bem melho:
Amtigamente cra
Bom meto!
teeee vida
Boa da porra kkkk
Piada que não poderia faltar… hahaha

Um exemplo típico é quando as gerações mais velhas se lembram como eram felizes na juventude, como os relacionamentos eram mais estáveis, as brincadeiras na rua eram mais saudáveis, os remédios caseiros eram mais eficazes, enquanto que os tempos de hoje são ruins para o seu bem-estar. Neste caso, não importa o estado atual das coisas, as pessoas sempre pensarão que os tempos eram melhores no passado.

Esse fenômeno impacta significativamente a avaliação das pessoas sobre os avanços e as condições do ambiente institucional e material do presente. Ou seja, a pessoa acometida pela retrospectiva idílica negligencia os fatos novos que podem dar a sensação de que o passado era melhor.

Segundo alguns estudos, a retrospectiva idílica ocorre porque os anos de juventude, mais especificamente entre 10 e 30 anos, coincidem com períodos em que as pessoas têm memórias mais salientes emocionalmente. Conhecida como colisão de reminiscência, as memórias de longo prazo mais vívidas são frequentemente originadas das idades entre 10 e 30 anos, que é quando muitos dos momentos significativos da vida ocorrem.

Diante disso, temos que a idade e o estado de saúde são fatores importantes que afetam o bem-estar das pessoas, induzindo a sensação de que o passado era melhor. Em outras palavras, não é necessariamente o passado que era melhor, mas sim os sentimentos e a condição física das pessoas na sua juventude que eram diferentes.

Se perguntarmos hoje em dia a uma criança se ela gostaria de viver nos anos 80 – em um mundo sem internet, quando os vídeo games tinham gráficos tão simples quanto uma calculadora e o mertiolate ardia pra caramba – provavelmente a resposta será negativa. O mesmo ocorreria com uma pessoa de 80 anos que sente saudade da década de 50, mas que provavelmente não gostaria de ter nascido na Idade Média.

Efeitos da retrospectiva idílica na política

Uma percepção tendenciosa do passado em relação ao futuro pode levar a avaliações imprecisas de ambos os períodos. Ao monitorar o progresso ao longo do tempo, é mais provável que se perceba o passado como melhor do que era. Com uma visão distorcida do passado como ponto de referência, a perspectiva atual também se torna distorcida, percebida como pior do que realmente pode ser.

Esse fenômeno gera implicações importantes principalmente na política. Quando se agrega os sentimentos positivos ao passado pode-se gerar uma tendência da opinião pública a valorizar mais o contexto político passado do que o atual.

As consequências políticas de uma opinião pública tendenciosa podem ser vastas. O apoio político ao nacionalismo testemunhou um crescimento significativo na segunda década do século XXI. Campanhas que celebraram um passado lembrado com carinho por muitos conquistaram apoio em todo o mundo. 

O referendo do Brexit de 2016 é um exemplo prático do efeito agregado da retrospectiva idílica. Esse referendo resultou na votação do Reino Unido pela saída da União Europeia, um esforço para retomar sua independência. 

Boris Johnson foi um dos principais apoiadores do Brexit.

Esse resultado vai em linha com o fenômeno da retrospectiva idílica quando analisa-se os votos em favor do Brexit por idade. Verificou-se que metade dos adultos britânicos com mais de 50 anos relatou que a vida no passado era preferível à vida hoje. Além do Reino Unido, movimentos políticos em torno de um mantra nostálgico tiveram amplo apoio nos Estados Unidos, França e Alemanha.

A campanha presidencial de Donald Trump em 2016 alavancou estrategicamente uma retrospecção otimista por meio do slogan, “Make America Great Again”, jogando com a crença dos eleitores de que os tempos eram muito melhores no passado. Durante sua campanha, Trump apontou o final dos anos 40 e 50 como uma época em que a América “não era pressionada”.

Trump em sua campanha presidencial com o slogan “Faça a América grande novamente”.

Embora muitos possam olhar para trás para os anos 50 como uma década em que o “sonho americano” era mais acessível e a vida era mais fácil, foi na verdade uma década repleta de desigualdade e injustiça, que teve muito menos das conveniências que consideramos garantidas hoje.

Retrospectiva idílica na política brasileira

Ao analisar o comportamento do eleitor brasileiro podemos encontrar os mesmos indícios que nos remetem ao fenômeno da retrospectiva idílica.

Os dados da última pesquisa do PoderData sobre a popularidade de Bolsonaro, por exemplo, mostram que a sua reputação está menos abalada entre os eleitores mais velhos, enquanto que os mais novos o reprovam com maior força. Essa resistência à reprovação entre os mais velhos ocorre mesmo frente ao comportamento irracional e negacionista do presidente com a pandemia da COVID-19, como a recusa para a compra de vacinas, que tem, inclusive, causado mais mortes entre as pessoas mais velhas.

Aprovação do governo Bolsonaro, por idade e sexo.

Bolsonaro é o típico retrato do conservadorismo brasileiro, que remonta a época do militarismo dos anos 60 a 80. Sendo assim, é de se esperar que o atual presidente cause uma sensação de que os valores antigos estão resguardados na mente de um grupo saudosista. Sobre esses valores, podemos mencionar o respeito absoluto à hierarquia (especialmente a militar), o apreço pelo “politicamente incorreto”, o repúdio ao grupo LGBT, a defesa do senso comum (em detrimento da ciência), entre outras coisas mais.

Obviamente há vários outros fatores que determinam as decisões políticas de cada grupo de pessoas. O saudosismo com o período ditatorial no Brasil pode ser atrelado a vários motivos, tanto econômico quanto social. Sobre o tema tratado neste texto, é evidente que análises mais abrangentes são necessárias para captar o real efeito da retrospectiva idílica. Entretanto, entende-se que esse é mais um viés cognitivo, dentro de tantos outros, que podem impactar as decisões importantes das pessoas dentro da política e da sociedade e que vale uma atenção especial.

Caso tenha interesse sobre o tema de heurísticas e vieses cognitivos, temos um texto que já foi postado aqui no site e que pode ser acessado neste link.

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